O nosso bairro vem, há muitos e muitos anos, enfrentando uma crise existencial que transcende o plano físico; é algo de ordem espiritual. É bem verdade que existem pessoas de boa intenção, desejosas de ajudar, mas que acabam sendo mal interpretadas ou jogadas no “mesmo saco” da mediocridade geral. Entretanto, o que precisamos tratar aqui é da casta de governantes que se apoderou da nossa cidade.
Eles agem como se o poder público fosse um bem vitalício, uma cadeira cativa por direito de herança, tanto na Câmara de Vereadores quanto no Executivo e até em esferas do Judiciário. Esses sujeitos, que enchem a boca para falar em “favor da democracia”, são, na verdade, personalidades obstinadas e endurecidas de coração. Esqueceram-se de que existe um povo — aquele que os elegeu e que paga, obrigatoriamente, os seus impostos.
A atitude desses políticos causa enojo. Quando o cidadão exerce o seu direito de cobrança, eles reagem com vertigens, como se a cobrança fosse uma heresia ou um ataque indevido. Estão tão agarrados ao poder que a simples ideia de não se reelegerem os tira do sério. Se hoje você cobra aquele em quem votou — o que é um dever e uma dignidade do eleitor —, você deixa de ser um cidadão para ser tratado como alguém de “mau gosto”, um inimigo da ordem estabelecida. Na época da eleição, eles aceitam todo tipo de crítica e fazem acordos com o diabo, vendendo a própria alma ao inferno se for preciso. Mas, ao primeiro passo após a posse, qualquer um que ouse questionar o governo é marcado como inimigo e passa a sofrer retaliações de um coronelismo arcaico.
O Barro da Glória e a Lama do Desprezo
Para entender a profundidade da nossa decadência, é preciso ouvir quem carrega a memória do Miguel Velho na pele. Ao conversarmos com os moradores que estão aqui há mais de 60 anos, percebemos que a crise não é apenas de gestão, mas de memória. O nosso bairro já foi um pujante polo industrial, centro da fabricação de telhas e cerâmicas. O barro do Miguel Velho era sinônimo de progresso. Hoje, o único barro que nos resta é o que se acumula no meio da estrada, impedindo que os carros circulem e isolando os moradores.
Houve um tempo em que o Miguel Velho era o palco das grandes discussões políticas; as pessoas tinham prazer em frequentar a Associação de Moradores. Hoje, o que vemos nos olhos dos nossos idosos é o mais profundo enojo. Eles assistiram à política ser transformada em um balcão de negócios enquanto o bairro parou no tempo.
A Maldição da Desunião Política
Desde os tempos do saudoso Farias, o Miguel Velho vive um deserto de representatividade. Temos os votos, mas não temos a cadeira. E não é por falta de nomes. Temos o Francisco “Nem”, focado no esporte e nas tradições, que luta contra barreiras invisíveis e até problemas estranhos na urna eletrônica. Temos o Marcos, homem do Direito e da comunicação, que exerce uma oposição necessária, mas que ainda não converteu a crítica em votos suficientes.Temos também o Francisco Buíca, o “Amigo do Povo”, com mais de 30 anos de experiência e um dos fundadores da nossa Associação. Buíca é história viva: ajudou na chegada da água tratada, na construção de casas populares e no desbravamento de ruas. Hoje, ele integra a base do governo do prefeito Gustavo Carmo, o que nos faz questionar: será este o caminho para finalmente trazer o asfalto ou apenas mais uma liderança silenciada pelo sistema?Não muito longe, fazendo parte da nossa história, temos o Parque Moreira, o Parque Santa Maria e a Baixa da Candeia. É ali que encontramos a figura de José Alves Filho, um homem que provou que a vontade política produz frutos. Como presidente de associação, ele fez o papel que muitos vereadores não fazem: buscou emendas, trouxe o asfalto para a estrada da Baixa da Candeia e garantiu a instalação do Posto de Saúde da Família na divisa com o Parque Moreira. Ele provou que a cobrança corajosa produz resultados reais.
O Despertar Necessário: Acorda Povo!
O que tento esclarecer, caro leitor, é que o nosso bairro tem tudo para crescer. Qualquer um desses nomes possui potencial para ser um líder comunitário ainda mais forte. Mas a questão começa no povo.O povo está dormindo.Um povo que deveria eleger seus representantes pelos méritos e pelas lutas, mas que, na hora da urna, não consegue se unir. Se somarmos os votos de todos esses líderes, não elegeríamos um vereador. E por quê? Porque o povo não consegue olhar para frente; só consegue olhar para o próprio “bucho”. Aceitam ser comprados por sacos de cimento, cestas básicas ou promessas vazias de emprego na prefeitura.
Quem aceita ser comprado não tem o direito de reclamar. O “Miguel Velho” não continuará sendo um lugar velho e atrasado por causa do nome, mas porque as pessoas que nele habitam estão com a mentalidade atrasada. É preciso acordar para a vida! É preciso entender que um direito não se troca por um favor. Se o povo não se organizar e parar de vender o futuro por uma migalha no presente, o Miguel nunca será novo.
Autor: Noel Souza
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