Tag: Noel Souza

Miguel Nunca Será Novo?

O nosso bairro vem, há muitos e muitos anos, enfrentando uma crise existencial que transcende o plano físico; é algo de ordem espiritual. É bem verdade que existem pessoas de boa intenção, desejosas de ajudar, mas que acabam sendo mal interpretadas ou jogadas no “mesmo saco” da mediocridade geral. Entretanto, o que precisamos tratar aqui é da casta de governantes que se apoderou da nossa cidade.

Eles agem como se o poder público fosse um bem vitalício, uma cadeira cativa por direito de herança, tanto na Câmara de Vereadores quanto no Executivo e até em esferas do Judiciário. Esses sujeitos, que enchem a boca para falar em “favor da democracia”, são, na verdade, personalidades obstinadas e endurecidas de coração. Esqueceram-se de que existe um povo — aquele que os elegeu e que paga, obrigatoriamente, os seus impostos.

A atitude desses políticos causa enojo. Quando o cidadão exerce o seu direito de cobrança, eles reagem com vertigens, como se a cobrança fosse uma heresia ou um ataque indevido. Estão tão agarrados ao poder que a simples ideia de não se reelegerem os tira do sério. Se hoje você cobra aquele em quem votou — o que é um dever e uma dignidade do eleitor —, você deixa de ser um cidadão para ser tratado como alguém de “mau gosto”, um inimigo da ordem estabelecida. Na época da eleição, eles aceitam todo tipo de crítica e fazem acordos com o diabo, vendendo a própria alma ao inferno se for preciso. Mas, ao primeiro passo após a posse, qualquer um que ouse questionar o governo é marcado como inimigo e passa a sofrer retaliações de um coronelismo arcaico.

O Barro da Glória e a Lama do Desprezo

Para entender a profundidade da nossa decadência, é preciso ouvir quem carrega a memória do Miguel Velho na pele. Ao conversarmos com os moradores que estão aqui há mais de 60 anos, percebemos que a crise não é apenas de gestão, mas de memória. O nosso bairro já foi um pujante polo industrial, centro da fabricação de telhas e cerâmicas. O barro do Miguel Velho era sinônimo de progresso. Hoje, o único barro que nos resta é o que se acumula no meio da estrada, impedindo que os carros circulem e isolando os moradores.

Houve um tempo em que o Miguel Velho era o palco das grandes discussões políticas; as pessoas tinham prazer em frequentar a Associação de Moradores. Hoje, o que vemos nos olhos dos nossos idosos é o mais profundo enojo. Eles assistiram à política ser transformada em um balcão de negócios enquanto o bairro parou no tempo.

A Maldição da Desunião Política

Desde os tempos do saudoso Farias, o Miguel Velho vive um deserto de representatividade. Temos os votos, mas não temos a cadeira. E não é por falta de nomes. Temos o Francisco “Nem”, focado no esporte e nas tradições, que luta contra barreiras invisíveis e até problemas estranhos na urna eletrônica. Temos o Marcos, homem do Direito e da comunicação, que exerce uma oposição necessária, mas que ainda não converteu a crítica em votos suficientes.Temos também o Francisco Buíca, o “Amigo do Povo”, com mais de 30 anos de experiência e um dos fundadores da nossa Associação. Buíca é história viva: ajudou na chegada da água tratada, na construção de casas populares e no desbravamento de ruas. Hoje, ele integra a base do governo do prefeito Gustavo Carmo, o que nos faz questionar: será este o caminho para finalmente trazer o asfalto ou apenas mais uma liderança silenciada pelo sistema?Não muito longe, fazendo parte da nossa história, temos o Parque Moreira, o Parque Santa Maria e a Baixa da Candeia. É ali que encontramos a figura de José Alves Filho, um homem que provou que a vontade política produz frutos. Como presidente de associação, ele fez o papel que muitos vereadores não fazem: buscou emendas, trouxe o asfalto para a estrada da Baixa da Candeia e garantiu a instalação do Posto de Saúde da Família na divisa com o Parque Moreira. Ele provou que a cobrança corajosa produz resultados reais.

O Despertar Necessário: Acorda Povo!

O que tento esclarecer, caro leitor, é que o nosso bairro tem tudo para crescer. Qualquer um desses nomes possui potencial para ser um líder comunitário ainda mais forte. Mas a questão começa no povo.O povo está dormindo.Um povo que deveria eleger seus representantes pelos méritos e pelas lutas, mas que, na hora da urna, não consegue se unir. Se somarmos os votos de todos esses líderes, não elegeríamos um vereador. E por quê? Porque o povo não consegue olhar para frente; só consegue olhar para o próprio “bucho”. Aceitam ser comprados por sacos de cimento, cestas básicas ou promessas vazias de emprego na prefeitura.

Quem aceita ser comprado não tem o direito de reclamar. O “Miguel Velho” não continuará sendo um lugar velho e atrasado por causa do nome, mas porque as pessoas que nele habitam estão com a mentalidade atrasada. É preciso acordar para a vida! É preciso entender que um direito não se troca por um favor. Se o povo não se organizar e parar de vender o futuro por uma migalha no presente, o Miguel nunca será novo.

Autor: Noel Souza

O Carnaval Permanente e a Política da Anestesia Coletiva

Há algo de profundamente doente na maneira como o poder público brasileiro — e, de modo particular, o baiano — passou a tratar o dinheiro do contribuinte. Não se trata mais de má gestão apenas. Trata-se de um projeto de distração contínua, um regime de anestesia moral travestido de política cultural.O Estado já não governa: entretem. Sob o pretexto de “valorizar a cultura”, “movimentar a economia” e “gerar emprego e renda”, despejam-se milhões de reais em festas, shows, carnavais fora de época, São João hipertrofiado e espetáculos cuja principal função não é educar, elevar ou civilizar, mas entorpecer.

O discurso é sempre o mesmo. Repetido à exaustão, como um mantra ideológico:— O dinheiro vai para a rua.— A economia gira.— O povo precisa de lazer. Mas essa narrativa só se sustenta enquanto ninguém resolve fazer a pergunta essencial: a que custo e em benefício de quem? Quando o governo da Bahia gasta dezenas de milhões de reais em eventos festivos, contratando artistas com cachês que ultrapassam com folga o orçamento anual de muitas escolas públicas, não estamos diante de política cultural.

Estamos diante de engenharia social. A cultura, nesse contexto, deixa de ser expressão da identidade de um povo e passa a ser instrumento de controle emocional das massas. O modelo é antigo. Não nasceu no Brasil, nem na Bahia. Foi formulado com precisão brutal na Roma decadente: pão e circo. Na ausência de virtude, oferece-se prazer. Na falta de justiça, distribui-se espetáculo. Onde não há governo, há festa.O mais grave, porém, não é o gasto em si. É o efeito psicológico produzido. A população passa a associar política a entretenimento, governo a evento, gestão pública a palco. O cidadão deixa de ser sujeito político e se converte em plateia. A crítica desaparece, substituída pelo aplauso. A cobrança se dissolve na euforia coletiva.Enquanto isso, escolas continuam sem estrutura. Creches seguem insuficientes. Campos de futebol comunitários — que poderiam formar jovens, disciplinar corpos e educar almas — permanecem inexistentes. Parquinhos infantis, equipamentos básicos de convivência social, são tratados como luxo, enquanto trios elétricos recebem prioridade orçamentária. Não se trata de ser contra a música, a festa ou a tradição popular. Essa é a caricatura usada para desqualificar qualquer crítica. Trata-se de algo muito mais profundo: a inversão completa das prioridades do Estado . Um governo sério investe primeiro no que é estrutural e permanente. Educação não dá voto imediato, saneamento não rende selfie, creche não viraliza no Instagram. Já um show milionário rende aplauso instantâneo, gratidão emocional e silêncio político. O populismo moderno não se sustenta mais apenas na promessa. Ele se sustenta na sensação. E nada produz mais sensação do que música alta, multidão e euforia coletiva. O povo é conduzido não pela força, mas pelo afeto manipulado. Não se impõe a submissão: ela é desejada. Como gado conduzido não pelo chicote, mas pelo sal. Nesse ambiente, qualquer tentativa de lucidez é vista como amargura. Quem questiona é taxado de elitista. Quem cobra prioridade é chamado de inimigo da cultura. É o triunfo da infantilização política. A Secretaria de Cultura, de Esporte e de Lazer torna-se, na prática, um departamento de distração institucionalizada. Não promove cultura no sentido clássico — aquele que forma caráter, transmite valores e eleva o espírito —, mas apenas entretenimento bruto, repetitivo e emocionalmente raso.

O resultado é um povo cansado, confuso e permanentemente excitado, mas incapaz de formular uma crítica consistente. Uma sociedade que canta muito, dança bastante, mas pensa cada vez menos.E isso não é um acidente. É método. Governar uma população consciente exige virtude, competência e responsabilidade. Governar uma população distraída exige apenas orçamento para festas. Enquanto a multidão ocupa as ruas cantando, o poder permanece confortável. Porque povo entretido não fiscaliza, não compara, não exige, não reage.

Pensar dói. Festejar anestesia. E essa é a escolha política feita quando se troca escola por palco, creche por camarim, campo de futebol por trio elétrico.

Não é lazer.

Não é cultura.

É controle disfarçado de celebração.

E enquanto isso continuar sendo tratado como normal, a decadência seguirá sendo comemorada com fogos de artifício. E advinha quem paga essa conta?

Noel Souza

© 2026 noel souza

Theme by Anders NorenUp ↑