Ao meu irmão Leandro,

Lembro exatamente o momento da vida em que nos aproximamos. Você e eu, em plena adolescência — quer dizer, eu um pouco mais novo, e você com aquele cabelo de índio. Logo que te vi, você me convidou para brincar dentro da caixa da máquina de sua mãe. Achei que fosse um pique-esconde, mas na verdade era basquete.

Juro que nem sabia que brincadeira era aquela. Consistia em lançar a bola de tênis no caixote, no varal das cortinas, e quem mais acertasse vencia a disputa. Mas havia uma regra: antes, a bola precisava quicar na caixa da máquina, que ficava aos pés de sua mãe. Esse era o problema… ela, como sempre, estava costurando. Logo reclamou, e nós paramos. Ela disse:
Seu nego, não está vendo que estou trabalhando? E você também, magrelo!

Depois disso, você arrumou outra coisa para fazer. Saímos para caçar passarinho. Você matou três com uma pedra só — uma mania que você tinha de guardar sempre a mesma pedra.

Também me lembro das vezes em que você me ensinava a jogar bola, me incentivava a estudar, acreditava em mim. Recordo-me de você me emprestando suas roupas, cortando o meu cabelo no estilo Sulley Muntari, me fazendo sentir importante. Lembro das vezes em que saímos, passeamos, conhecemos outros lugares. Das vezes em que te acompanhei para você ir jogar bola, eu segurando sua chuteira com muito orgulho, gritando: Camisa 10!

Anos depois, quando meu pai morreu, nos sentamos no mesmo lugar, relembrando essa cena, com duas doses na mente, ouvindo Racionais e jogando videogame. Pensamos juntos:
Parece que foi ontem, mas já se passaram 18 anos.

Ali vi o seu sentimento de respeito pela nossa infância e senti que era verdadeiro. Hoje, já se vão mais 17 anos, e ainda me lembro daquela cena: a bola descascada pelo tempo, nós disputando — e, com certeza, eu perdendo.

Cada momento que nós passamos e vivemos é único. Pode até parecer que estamos distantes, mas não estamos, meu irmão. Eu oro pela sua vida sempre. Não esqueça disso: você é uma pessoa muito importante na minha vida.

De tudo aquilo, ficou uma certeza para a vida: mais do que lembranças, ganhei um amigo. Ganhei um irmão. E, neste fim de ano, te desejo um feliz Ano Novo e um tempo de refrigério, paz e renovo em sua vida.

Obrigado por sua amizade.

De seu irmão,
Noel Souza