Para minha irmã Maria José da Silva,
de seu irmão Noel
Ainda me lembro como se fosse agora. Meu pai me contava, depois de um dia de chuva forte, quando alguns tinham medo de ir trabalhar por causa dos trovões, sobre uma filha que ele teve — mulher de nascimento, mas, segundo ele, homem na coragem, na força e na forma de viver a vida.
Ele falava de Maria José da Silva, nascida na região de Itamira, na antiga Serra do Aporã. Ao nascer, era mais uma menina prometida ao cuidado do lar, criada para ser dona de casa, mãe de família, uma princesinha protegida. Mas o destino tinha outros planos.
Desde cedo, Maria descobriu o gosto pela agricultura e pela agropecuária. No trato com os animais, na montaria de cavalos bravos, no trabalho pesado da roça, no plantio e na colheita, ela se destacava. Carregava no sangue a genética do pai e as durezas da vida: a teimosia, a firmeza e a resistência.
Cresceu no meio dos irmãos, ajudando o pai, acordando ainda de madrugada para cuidar da casa, dos irmãos mais novos e da fazenda. Buscava água para o gado, limpava, colhia, tirava leite, enfrentava o sol forte, a chuva e o frio. Viajou quilômetros a cavalo para negociar e vender. Derrubava touros pelo chifre, fazia o que muitos homens não tinham coragem de fazer.
Com o tempo, tornou-se uma alegria tão grande para o pai que ele dizia sem hesitar:
“Essa menina deveria ter nascido homem, porque nem todos os homens fazem o que ela faz.”
A vida seguiu seu curso. Cada um tomou seu caminho. Ela cresceu, formou família, teve filhos e enfrentou lutas duras dentro do próprio lar. O casamento lhe trouxe dores, mas também a fortaleceu. Tornou-se mais firme, mais ríspida talvez, mas também maior.
Como mãe dedicada, lutou pelos filhos. Acordava cedo, limpava, lavava, passava, cozinhava, costurava de dia e de noite para que nada lhes faltasse. Trabalhou incansavelmente para que eles estudassem, crescessem e não dependessem de ninguém. Com muito sacrifício, criou praticamente todos sozinha.
E é a ti, minha irmã Maria, que dedico esta mensagem.
No meio de todas essas dores e batalhas, você me acolheu em sua casa. Alimentou-me, cuidou de mim, ensinou-me a vida, aconselhou-me e puxou meu pé para que eu estudasse. Nunca deixou faltar nada. Se hoje sou alguém com consciência moral, agradeço a Deus, ao nosso pai e a você, que sempre me deu conselhos sábios e direção física, material e espiritual.
Você me acolheu nos momentos de dificuldade, de perda e até quando você mesma enfrentava suas próprias pelejas — e isso nunca diminuiu seu cuidado comigo.
Louvo a Deus pela sua vida. Oro por ti. Agradeço por cada gesto de amor, cada conselho, cada momento em que deixou de cuidar de si para cuidar de mim. Meu pai tinha razão: nem todos os homens fazem o que você fez e faz.
Desejo que Deus te conceda um final de ano maravilhoso e um novo ano próspero, cheio de paz, alegria e amor.
E que nunca se apague a imagem daquela menina montada num cavalo borrachinha, rompendo as tempestades da vida e erguendo a bandeira da vitória.
Um beijo, minha velha.
Te amo.
Deixe um comentário