Autor: Noel Souza

A hipocrisia acaba junto com a ceia.

Não é desconhecido de ninguém que vivemos a época da falsidade institucionalizada. Se existe algo que foi avisado desde os tempos primordiais é que os hipócritas não herdarão o Reino.

A Escritura é clara, repetitiva e incômoda para quem prefere a aparência à verdade: o fingimento religioso é uma das formas mais refinadas da mentira. Ainda assim, chega o fim de ano e surgem as famosas ceias. Natal, réveillon, confraternizações familiares. Mesas fartas, casas cheias, discursos ensaiados. Famílias que não se veem o ano inteiro, que brigam, se odeiam, se processam, se difamam, se destroem, de repente resolvem “deixar tudo de lado” para sentar à mesa.

À mesa, fingem comunhão. Mas comunhão não é comer pão juntos; é pensar juntos. Não é dividir alimento; é dividir verdade. O que se vê, porém, é bajulação, mentira, promessas vazias, gastos irresponsáveis, endividamento para sustentar uma imagem que não existe. Jura-se amor eterno entre pais e filhos, irmãos e irmãs, enquanto no íntimo todos sabem que, no dia seguinte, a realidade bate à porta e as máscaras caem. E assim passam o resto do ano aguardando a próxima mesa farta, não para reconciliar a alma, mas para despejar novamente sentimentos fingidos que jamais habitaram o coração.

É um cardápio previsível: Perus de hipocrisia. Saladas de mediocridade. Temperos de mentira. Promessas infames. Palavras vazias. Desejos libidinosos. Não se engane: a mesa da terra não cura ninguém. Ela não transforma caráter. Ela não regenera a alma.

A mesa doméstica não tem poder espiritual algum quando o coração permanece corrompido. Ela apenas revela, ainda que de forma disfarçada, aquilo que já está podre por dentro.

Haverá, porém, um dia em que todos estaremos diante da mesa eterna. E ali, Judas jamais poderá se assentar. Não por falta de convite, mas por falta de arrependimento. Porque naquela mesa não há lugar para fingimento, nem para teatro moral, nem para religiosidade estética.

Cuidado com o fingimento.
Isso não é caráter cristão.

É infâmia.
É hipocrisia.
É patifaria travestida de tradição.

Cristianismo não é ceia anual, é vida transformada.
Não é mesa farta, é consciência limpa.
Não é abraço protocolar, é reconciliação verdadeira.

Enquanto houver mais preocupação com a aparência do prato do que com o estado da alma, continuaremos celebrando banquetes que Deus jamais abençoou.

Porque a hipocrisia, no fundo, sempre acaba quando a ceia termina — mas o juízo permanece.