Mês: janeiro 2026

O Carnaval Permanente e a Política da Anestesia Coletiva

Há algo de profundamente doente na maneira como o poder público brasileiro — e, de modo particular, o baiano — passou a tratar o dinheiro do contribuinte. Não se trata mais de má gestão apenas. Trata-se de um projeto de distração contínua, um regime de anestesia moral travestido de política cultural.O Estado já não governa: entretem. Sob o pretexto de “valorizar a cultura”, “movimentar a economia” e “gerar emprego e renda”, despejam-se milhões de reais em festas, shows, carnavais fora de época, São João hipertrofiado e espetáculos cuja principal função não é educar, elevar ou civilizar, mas entorpecer.

O discurso é sempre o mesmo. Repetido à exaustão, como um mantra ideológico:— O dinheiro vai para a rua.— A economia gira.— O povo precisa de lazer. Mas essa narrativa só se sustenta enquanto ninguém resolve fazer a pergunta essencial: a que custo e em benefício de quem? Quando o governo da Bahia gasta dezenas de milhões de reais em eventos festivos, contratando artistas com cachês que ultrapassam com folga o orçamento anual de muitas escolas públicas, não estamos diante de política cultural.

Estamos diante de engenharia social. A cultura, nesse contexto, deixa de ser expressão da identidade de um povo e passa a ser instrumento de controle emocional das massas. O modelo é antigo. Não nasceu no Brasil, nem na Bahia. Foi formulado com precisão brutal na Roma decadente: pão e circo. Na ausência de virtude, oferece-se prazer. Na falta de justiça, distribui-se espetáculo. Onde não há governo, há festa.O mais grave, porém, não é o gasto em si. É o efeito psicológico produzido. A população passa a associar política a entretenimento, governo a evento, gestão pública a palco. O cidadão deixa de ser sujeito político e se converte em plateia. A crítica desaparece, substituída pelo aplauso. A cobrança se dissolve na euforia coletiva.Enquanto isso, escolas continuam sem estrutura. Creches seguem insuficientes. Campos de futebol comunitários — que poderiam formar jovens, disciplinar corpos e educar almas — permanecem inexistentes. Parquinhos infantis, equipamentos básicos de convivência social, são tratados como luxo, enquanto trios elétricos recebem prioridade orçamentária. Não se trata de ser contra a música, a festa ou a tradição popular. Essa é a caricatura usada para desqualificar qualquer crítica. Trata-se de algo muito mais profundo: a inversão completa das prioridades do Estado . Um governo sério investe primeiro no que é estrutural e permanente. Educação não dá voto imediato, saneamento não rende selfie, creche não viraliza no Instagram. Já um show milionário rende aplauso instantâneo, gratidão emocional e silêncio político. O populismo moderno não se sustenta mais apenas na promessa. Ele se sustenta na sensação. E nada produz mais sensação do que música alta, multidão e euforia coletiva. O povo é conduzido não pela força, mas pelo afeto manipulado. Não se impõe a submissão: ela é desejada. Como gado conduzido não pelo chicote, mas pelo sal. Nesse ambiente, qualquer tentativa de lucidez é vista como amargura. Quem questiona é taxado de elitista. Quem cobra prioridade é chamado de inimigo da cultura. É o triunfo da infantilização política. A Secretaria de Cultura, de Esporte e de Lazer torna-se, na prática, um departamento de distração institucionalizada. Não promove cultura no sentido clássico — aquele que forma caráter, transmite valores e eleva o espírito —, mas apenas entretenimento bruto, repetitivo e emocionalmente raso.

O resultado é um povo cansado, confuso e permanentemente excitado, mas incapaz de formular uma crítica consistente. Uma sociedade que canta muito, dança bastante, mas pensa cada vez menos.E isso não é um acidente. É método. Governar uma população consciente exige virtude, competência e responsabilidade. Governar uma população distraída exige apenas orçamento para festas. Enquanto a multidão ocupa as ruas cantando, o poder permanece confortável. Porque povo entretido não fiscaliza, não compara, não exige, não reage.

Pensar dói. Festejar anestesia. E essa é a escolha política feita quando se troca escola por palco, creche por camarim, campo de futebol por trio elétrico.

Não é lazer.

Não é cultura.

É controle disfarçado de celebração.

E enquanto isso continuar sendo tratado como normal, a decadência seguirá sendo comemorada com fogos de artifício. E advinha quem paga essa conta?

Noel Souza

O PAPEL CONSTITUCIONAL DO VEREADOR

Nem gritaria vazia, nem submissão cega

A função real do vereador na Constituição

A Constituição Federal não criou o cargo de vereador para servir de palanque político nem para funcionar como carimbo automático do Poder Executivo.

O vereador foi eleito para representar o povo com responsabilidade, equilíbrio e compromisso institucional.Quando o mandato é reduzido a extremos, a democracia local perde força. De um lado está o vereador que apenas reclama, cobra e faz barulho. Do outro está o vereador da base que confunde apoio político com submissão total. Nenhum desses comportamentos cumpre a função constitucional do cargo.

O que a Constituição Federal determina

O artigo 29 da Constituição Federal estabelece que o Poder Legislativo Municipal existe para representar a população local. Representar significa ouvir o povo, organizar demandas e transformá-las em ações políticas concretas.

Representar não é atacar por conveniência. Representar também não é apoiar por interesse. O artigo 31 da Constituição Federal define que cabe à Câmara Municipal fiscalizar o Poder Executivo. Fiscalizar não é gritar, expor ou fazer espetáculo. Fiscalização exige análise técnica, acompanhamento de contratos, obras públicas e uso correto dos recursos do município.-

O erro do vereador que só reclama

O vereador que se limita a criticar o prefeito, repetir problemas conhecidos e fazer discursos inflamados, mas não apresenta projetos de lei, indicações ou soluções práticas, não exerce oposição responsável. Reclamar não é governar. Criticar sem propor é omissão. Mandato exige ação institucional.

O erro do vereador que só apoia

Ser vereador da base do governo não significa apoiar tudo de forma automática. Apoio político não elimina o dever de fiscalizar. Pelo contrário, aumenta a responsabilidade com a legalidade e o interesse público. O vereador da base não pode ser passivo, nem conivente com erros administrativos. Fiscalizar faz parte do mandato, independentemente da posição política.

O que se espera de um vereador responsável

A Constituição espera que o vereador atue como representante legítimo do povo. Isso inclui fiscalizar com provas, legislar com seriedade, propor soluções, dialogar com maturidade e agir com independência. Vereador não é comentarista político. Vereador é agente institucional.

Por que isso é importante para a cidade

Quando o vereador não compreende sua função constitucional, a cidade sofre. Sem fiscalização, erros se repetem. Sem legislação eficiente, problemas antigos permanecem. Sem diálogo institucional, o município trava. O eleitor não vota para assistir brigas políticas. O eleitor vota esperando soluções reais para os problemas do dia a dia.

O vereador que só ataca empobrece o debate político. O vereador que só apoia enfraquece o Poder Legislativo. Ambos falham com a população. Mandato não é palco, não é rede social e não é espaço para vaidade pessoal. Mandato é responsabilidade pública. A cidade precisa de vereadores que compreendam que representar o povo exige equilíbrio, firmeza, independência e respeito à Constituição Federal. Reclamar por reclamar, eu também reclamo. Tirar fotos de buracos nas ruas, denunciar problemas e incitar o povo a fazer manifestações pacíficas, isso eu também faço. Reclamar das condições da cidade, do funcionamento do serviço público, das filas de espera, da saúde e da educação, também faço. Postar vídeos nas redes sociais, eu também posto. Criticar abertamente, fazer entrevistas, ir atrás de quem está errado ou certo, cobrar explicações e dar voz ao povo, tudo isso eu também faço. No entanto, existe uma diferença fundamental.

Eu não sou vereador. Não fui eleito pelo povo. Não tenho mandato. Não ocupo cargo público algum.

Aquele que foi eleito deve ter a capacidade mínima de discernir quando age como cidadão, indignado com os erros de uma gestão, e quando age como representante institucional do povo, fazendo parte do sistema político, seja da oposição ou não. Deve saber distinguir quem ele era antes, como parte do povo, e quem ele é agora, investido de mandato popular. O cargo exige mudança de postura, responsabilidade maior e compromisso com soluções concretas.

Quando um vereador se limita a fazer apenas o que qualquer cidadão pode fazer, ele desperdiça o mandato que recebeu e esvazia a função que a Constituição lhe confiou.

Autor: Noel Souza

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