Há algo de profundamente doente na maneira como o poder público brasileiro — e, de modo particular, o baiano — passou a tratar o dinheiro do contribuinte. Não se trata mais de má gestão apenas. Trata-se de um projeto de distração contínua, um regime de anestesia moral travestido de política cultural.O Estado já não governa: entretem. Sob o pretexto de “valorizar a cultura”, “movimentar a economia” e “gerar emprego e renda”, despejam-se milhões de reais em festas, shows, carnavais fora de época, São João hipertrofiado e espetáculos cuja principal função não é educar, elevar ou civilizar, mas entorpecer.
O discurso é sempre o mesmo. Repetido à exaustão, como um mantra ideológico:— O dinheiro vai para a rua.— A economia gira.— O povo precisa de lazer. Mas essa narrativa só se sustenta enquanto ninguém resolve fazer a pergunta essencial: a que custo e em benefício de quem? Quando o governo da Bahia gasta dezenas de milhões de reais em eventos festivos, contratando artistas com cachês que ultrapassam com folga o orçamento anual de muitas escolas públicas, não estamos diante de política cultural.
Estamos diante de engenharia social. A cultura, nesse contexto, deixa de ser expressão da identidade de um povo e passa a ser instrumento de controle emocional das massas. O modelo é antigo. Não nasceu no Brasil, nem na Bahia. Foi formulado com precisão brutal na Roma decadente: pão e circo. Na ausência de virtude, oferece-se prazer. Na falta de justiça, distribui-se espetáculo. Onde não há governo, há festa.O mais grave, porém, não é o gasto em si. É o efeito psicológico produzido. A população passa a associar política a entretenimento, governo a evento, gestão pública a palco. O cidadão deixa de ser sujeito político e se converte em plateia. A crítica desaparece, substituída pelo aplauso. A cobrança se dissolve na euforia coletiva.Enquanto isso, escolas continuam sem estrutura. Creches seguem insuficientes. Campos de futebol comunitários — que poderiam formar jovens, disciplinar corpos e educar almas — permanecem inexistentes. Parquinhos infantis, equipamentos básicos de convivência social, são tratados como luxo, enquanto trios elétricos recebem prioridade orçamentária. Não se trata de ser contra a música, a festa ou a tradição popular. Essa é a caricatura usada para desqualificar qualquer crítica. Trata-se de algo muito mais profundo: a inversão completa das prioridades do Estado . Um governo sério investe primeiro no que é estrutural e permanente. Educação não dá voto imediato, saneamento não rende selfie, creche não viraliza no Instagram. Já um show milionário rende aplauso instantâneo, gratidão emocional e silêncio político. O populismo moderno não se sustenta mais apenas na promessa. Ele se sustenta na sensação. E nada produz mais sensação do que música alta, multidão e euforia coletiva. O povo é conduzido não pela força, mas pelo afeto manipulado. Não se impõe a submissão: ela é desejada. Como gado conduzido não pelo chicote, mas pelo sal. Nesse ambiente, qualquer tentativa de lucidez é vista como amargura. Quem questiona é taxado de elitista. Quem cobra prioridade é chamado de inimigo da cultura. É o triunfo da infantilização política. A Secretaria de Cultura, de Esporte e de Lazer torna-se, na prática, um departamento de distração institucionalizada. Não promove cultura no sentido clássico — aquele que forma caráter, transmite valores e eleva o espírito —, mas apenas entretenimento bruto, repetitivo e emocionalmente raso.
O resultado é um povo cansado, confuso e permanentemente excitado, mas incapaz de formular uma crítica consistente. Uma sociedade que canta muito, dança bastante, mas pensa cada vez menos.E isso não é um acidente. É método. Governar uma população consciente exige virtude, competência e responsabilidade. Governar uma população distraída exige apenas orçamento para festas. Enquanto a multidão ocupa as ruas cantando, o poder permanece confortável. Porque povo entretido não fiscaliza, não compara, não exige, não reage.
Pensar dói. Festejar anestesia. E essa é a escolha política feita quando se troca escola por palco, creche por camarim, campo de futebol por trio elétrico.
Não é lazer.
Não é cultura.
É controle disfarçado de celebração.
E enquanto isso continuar sendo tratado como normal, a decadência seguirá sendo comemorada com fogos de artifício. E advinha quem paga essa conta?
Noel Souza